sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Meus últimos dois tostões ao Partido dos Trabalhadores


racha do pt
Tenho vontade de pontuar com precisão esse assunto há algum tempo. Tratar do contraste entre o respeito que tenho pelo papel histórico do Partido dos Trabalhadores e meu desconforto ante ao PT atual. Essa massa amorfa, mergulhada na soberba do fisiologismo, que ainda se vale daquela referência histórica para gozar de uma blindagem ante a qualquer crítica.

Pra começar, preciso frustrar as expectativas do antipetista visceral. Aquele que pensa em vir aqui pra me ver usando termos cunhados por um Reinaldo Azevedo da vida. Não é o caso, não é isso que farei, nem nesse texto nem num próximo. Tenho uma reputação a zelar. 

Mantenho uma tremenda desconfiança sobre esse perfil do antipetista nervoso, chiliquento, que sai esbravejando termos como “petralhas”, falando em mensalão como se fosse a obra inaugural da corrupção no Brasil ou mesmo “o maior esquema” de corrupção da história. Até porque é esse tipo de crítica alienada e insipiente que fortalece a imunidade de um PT que merece, e requer, uma crítica mais apurada.

Ao mesmo tempo em que é preciso reconhecer avanços em políticas econômicas e sociais operados pela mudança de prisma na passagem do governo tucano para o governo petista, é chegada a hora de perceber que a fórmula estagnou, conforme já se podia prever que iria estagnar.

Sim, o governo Lula tirou o país de um caminho para a catástrofe. No plano internacional, substituiu a lógica do aprofundamento na subserviência por uma busca de relações bilaterais com outras nações em desenvolvimento, o que serviu para aquecer e para proteger nossa economia enquanto grandes potências passavam por crises profundas. Aqui dou meu primeiro tostão.

Além disso, no campo das políticas sociais, medidas de simples assistencialismo serviram para retirar um grande número de famílias da miséria absoluta, por efeito dos programas de bolsas que uma oposição raivosa passou a demonizar. Aqui dou o segundo e último tostão.

Por outro lado. o engomadinho que demoniza programas assistenciais e acha que o faminto pode esperar enquanto se pensa numa saída definitiva e genial para a fome é o tipo de figura que reforça a blindagem do PT, que possibilita ao partido o uso do argumento de que toda a oposição é preconceituosa e elitista.

Na economia, é preocupante observar que as vantagens advindas da quebra de paradigma na política internacional vêm se esgotando e que o país não aproveitou a bonança para cuidar de desenvolvimento de fato. O tal PAC não mostra a que veio no sentido de desenvolver infraestrutura, a produção científica não é incentivada. O país não prepara caminho para o progresso de fato.

As políticas para a educação não passam de gambiarras para mascarar estatísticas (ENEM, cotas, etc) sem que o quadro calamitoso da escola pública seja reconhecido e enfrentado. Os problemas da universidade são tratados apenas pelo viés quantitativo, do aumento do número de vagas. Enquanto isso, o PROUNI é um projeto de privatização silenciosa do ensino superior, aplaudido pelo Movimento Estudantil que sempre defendeu “educação pública e gratuita de qualidade”. Afinal, a UNE faz parte da claque do aplauso incondicional ao governo.

Na saúde, pra quem gosta de números, basta mencionar que o SUS perdeu 42 mil leitos entre outubro de 2005 e junho de 2012. Faculdades de medicina no país enfrentam o dilema entre o sucateamento ou a privatização dos hospitais universitários.

Enquanto se implementaram programas assistenciais de urgência e a economia cresceu de maneira modesta, mas estável, criando mais vagas de trabalho formal, a grande “transformação social” da qual o PT gosta de se vangloriar se baseia na mudança de padrões de consumo do trabalhador, que agora pode comprar eletro-eletrônicos vindos da China graças a uma grande capacidade de endividamento.

Ou seja, num quadro em que pouco ou nada se faz pela saúde ou pela educação, a maior vitória esbanjada pelo governo consiste em propiciar o consumo de tranqueiras pelo trabalhador que mantém seus filhos numa escola de quinta categoria, numa família em que, se alguém adoecer ou sofrer um acidente, terá de enfrentar o calvário do SUS, mas tem TV de LCD e paga por ela uma prestação a perder de vista.

Nesse quadro, a maior parte do “progresso” do qual o governo se vangloria é uma ilusão. Será possível que a utopia progressista almejada pelo Partido dos Trabalhadores se limita a uma réplica fuleira do “american way of life” falsificada no Paraguai ou trazida da China, comprada num crediário com parcelas a perder de vista?

Enquanto isso, na economia, seguimos sedimentando nossa vocação para sermos a seção hortifrútis do mundo globalizado. Não se fala em incentivo à pesquisa científica e o país se deu ao luxo de passar o todo o segundo semestre de 2012 com as universidades federais paradas porque o governo “não teve tempo” para negociar com os professores e técnicos em greve.

Ao contrário do antipetista visceral, reconheço a grande importância que teve o Partido dos Trabalhadores na vida política do país. O PT, enquanto grande partido e enquanto referência de esquerda, serviu para trazer à baila discussões que não entrariam em pauta por obra de nenhum outro partido. Ou pelo fato de a velha direita reproduzir a mesquinharia de uma elite retrógrada, ou pela menor expressividade dos demais partidos de esquerda.

O problema é que aquele PT não mais existe. O que está aí é um partido que, pela via do pragmatismo, enveredou no fisiologismo e perdeu a identidade há bastante tempo. Enquanto isso, continua gozando dos benefícios daquela referência histórica que não mais existe.

O resultado é um PT que virou puta, que abraça o Maluf em São Paulo, que está em campanha coligado à Roseana Sarney no Maranhão, mas que se faz de donzela virgem na hora de criticar as alianças e coligações de qualquer outro partido dito de esquerda no país.

Para piorar, a trupe do antipetismo nervoso, que vai da dona de casa leitora da Veja, passando pelo “internauta” assíduo do blog do Reinaldo Azevedo, chegando até a ala raivosa e perigosa das viúvas da ditadura militar, ajudam na construção de uma blindagem para o PT segundo a qual toda e qualquer oposição é preconceituosa, elitista, e golpista. O enorme barulho feito por esse manicômio que é a direita brasileira acaba por abafar qualquer crítica que se pretenda fazer ao governo.

Como já tratei em inúmeros outros textos aqui, boa parte das lágrimas derramadas por uma oposição patética que acusa o PT de conduzir inquebrantável projeto do hegemonia representam o choro de grupos desprovidos de capacidade crítica, para a qual o senhor José Serra e o falecido PSDB podem ser tomados como referências máximas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

E os novos ventos do STF sopraram pra longe a CPI do Cachoeira


cpi do cachoeira22

Não obstante o choro de uns e a alegria de outros, o julgamento do mensalão tem representado um marco na história das nossas instituições. Pela primeira vez, o STF mostra pulso e parece disposto a julgar “doa em quem doer”, não importando quantos engravatados devam acabar no xilindró. Esse recado foi ouvido no Congresso, e já fez com que o espírito de corpo tomasse conta da casa, servindo para dar um novo rumo à CPI do Cachoeira.

Da parte dos trabalhavam a versão de um PT messiânico sendo levado ao Calvário pelo atroz Joaquim Barbosa, tomado como um implacável defensor dos interesses elitistas do império, a ladainha que se repetia era “e a CPI do Cachoeira?”, “e o mensalão tucano?”. O fim dessa lamúria se deu de maneira inusitada, com o próprio PT orquestrando no congresso o encerramento da CPI que investiga o esquema do bicheiro antes que as investigações recaíssem sobre políticos.

Parece uma relação direta de causa e efeito. O recado dado pela mudança de postura do STF chegou ao Congresso e, com base nele, certas “desavenças” foram aplacadas e entrou em ação o espírito corporativo. O “deixa disso” generalizado é apenas o esperado diante do aviso: o que antes não passava de um teatro agora tem mais chances de botar corrupto efetivamente em cana.

Uma ala do PT ainda é favorável à prorrogação da CPI, para que ela chegue ao tucano Maconi Perillo, governador de Goiás, mas com o avanço dos trabalhos, também deveria falar Luiz Antonio Pagot, ex diretor do Dnit, que considerou anti-ético um pedido que lhe foi feito pelo PT durante a última campanha presidencial.

A verdade é que a CPI do Cachoeira não serve como campo de batalha pra ninguém, porque as baixas para todos os lados seriam muito numerosas. Diante de um STF que parece mais disposto a mandar político pra cadeia, o desfecho mais óbvio é o que estamos assistindo. Tudo termina com os mesmos tapinhas nas costas entre aqueles que estão com seus rabos igualmente presos nas ramificações do esquema do bicheiro.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Moroni Torgan, “voto útil” e você na massa de manobra


moroni torgan
De maneira intrigante, as eleições para prefeito em Fortaleza repetem uma mesma dinâmica há bastante tempo. Do início ao fim, um script que não falha. Moroni Torgan parte na frente, mesmo contando com a mais gigantesca rejeição. É inevitável que as pessoas levem em conta a “ameaça Moroni” ao escolherem seus candidatos, e isso tem sempre o mesmo impacto no resultado das eleições, Moroni despenca após ter “tangido” o voto útil em determinada direção. 

O curioso é que, apesar de o mórmon "valentão" largar sempre com grande vantagem, quem é o verdadeiro eleitor dele? Ninguém sabe, ninguém viu. Ou melhor, eu mesmo vi uma vez um carro com um adesivo dele e um outro da Ação Integralista Brasileira (AIB), mas Fortaleza não é a Alemanha de 1932 pra ter eleitores em massa simpatizando com esse avanço fascista. Isso não existe, assim como não existe no povo empatia pelo sujeito que possa colocá-lo naquela liderança inicial. É o que fica sempre demonstrado ao longo do processo.

O fato é que a presença da “ameaça fascista” no topo das pesquisas por um bom tempo, na fase inicial das campanhas, acaba tendo por efeito fixar no eleitorado a ideia do voto útil. O voto pra tirar o fascistão de lá. E quem é o candidato escolhido para tanto? O mais forte, o que conta com aquela campanha milionária, o que é alavancado pelo repulsivo uso da máquina administrativa para fins eleitoreiros. Qualquer um dos dois que, igualmente, cumprem com esses quesitos. No presente caso: Elmano de Freitas (PT) e Roberto Cláudio (PSB).

Por algum tempo, analisei apenas como curiosa essa manobra de inversão realizada pelo Moroni, de largar na liderança e, invariavelmente, afundar. Hoje a tomo como suspeita. Não desconfio que ele lance candidatura apenas para isso. Desconfio é que os institutos de pesquisa venham usando sua caricata presença de “bicho papão”, forjando sua liderança inicial para evitar grandes variações no resultado das eleições.

Isso porque os investidores das grandes campanhas, as que tiraram o “bicho papão” do segundo turno (onde ele talvez nunca tenha estado) são ou os mesmos, ou igualmente fortes para que possam realizar esse jogo de bastidores. A mamata das empreiteiras com as presumíveis licitações de cartas marcadas, essa desgraça engendrada pelo nosso modelo de financiamento de campanhas, só fica ameaçada se for eleito um “azarão”. Com qualquer um dos candidatos oficiais, o retorno do investimento milionário em campanha fica assegurado.

Ao mesmo tempo, colocar um “bicho papão” com uma rejeição gigantesca como líder inicial das pesquisas é uma maneira muito eficiente de manobrar o “voto útil” para fortalecer os candidatos situacionistas e obstar o sucesso de qualquer candidatura mais modesta, que represente um risco de ruptura com os esquemas em andamento e com a imundice já reforçada pelos volumosos patrocínios de campanha. 

Resta saber por quantas vezes essa mesma cena ainda se repetirá. Quanto tempo levará para que esse jogo seja manjado. Se estiver em Fortaleza em 2016, à altura das eleições municipais, tentarei trazer novamente à tona essa discussão, usando as redes sociais. Talvez com isso eu possa cumprir um papel mais interessante do que o de simplesmente declarar apoio a um candidato. E meu candidato, pode ter certeza, nunca é o “dos esquemas”, nem nunca será. Pra mim, esse agigantamento fascista que nos mostram inicialmente as pesquisas, simplesmente nunca existiu.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Joaquim Barbosa, sem querer, seduziu a direita manicomial


joaquim barbosa

A última atração no freak show da política brasileira é essa aglutinação da milicada saudosa da ditadura em torno do ministro Joaquim Barbosa, como se o homem fosse se animar em virar aliado político deste “peculiar” setor do espectro ideológico, que eu costumo chamar de “ala manicomial” da nossa direita. Não todo o contingente das Forças Armadas, que tem bons democratas, mas aquela velha "turma", sempre com o mesmo papo.

O general José Elito Carvalho Siqueira, muito solícito, escalou proteção do exército para o ministro, tomado simbolicamente como um herói nacional no processo do mensalão. Isso sem que houvesse qualquer indicativo de ameaça contra Barbosa. Parece que escalar homens armados pra montar vigília na casa de alguém é uma “gentileza”, na cabeça desse pessoal, feita como quem manda uma garrafa de vinho de presente a um amigo.

Essa é a pérola que circula pelas redes sociais. 

Pelo que sei do Joaquim Barbosa, da sua formação e das suas orientações filosóficas, o homem deve estar num desconforto tremendo com a situação. Age profissionalmente movido pelas convicções que lhe possibilitam a análise do caso e com base, sobretudo, na formação jurídica de quem dedicou a vida ao Direito Constitucional e de quem prima pela observância à Constituição.

Não é o tipo de sujeito que vai ser seduzido por aquele “peculiar” grupo que fica salivando diante de qualquer ensejo pra tornar a ameaçar a democracia nesse país. Se é pra isso, escolham outro. Quem sabe o Gilmar Mendes. O Barbosa não vai! Falando nisso, por que mesmo o Gilmar anda tão quieto nessa história de mensalão, hein?

Imagino a situação do Barbosa agora e lembro dos motivos pelos quais eu, mesmo em momentos nos quais teria motivos para bater de frente e bater forte no PT, acabo optando por "pegar leve". Não me convém que a tal ala manicomial olhe pra mim como possível aliado. Ganhar a simpatia política dessa turma é um constrangimento pelo qual não desejo passar, daí imagino a saia justa em que se meteu o ministro, que tá ali apenas fazendo seu trabalho.

Está na hora da política brasileira amadurecer, de criar alternativas dentro do cenário democrático e de virar essa página desgraçada da nossa história. Ao mesmo tempo em que o PSDB acabou-se porque é incapaz de fazer oposição com inteligência crítica, quem aqui e acolá sobe no palanque da oposição é essa turma que range mais os dentes do que fala.

Foi por isso que as últimas eleições presidenciais foram um dos episódios mais imbecis da nossa história. Quando iniciaram-se as discussões, quem estava à frente da oposição era o tal Índio da Costa, delirando sobre as FARC, sobre o Foro de São Paulo e sobre todas as teorias de conspiração comunista que habitam as fantasias dessa ala manicomial da direita brasileira. O PSDB calado, só batendo palma pro doido dançar.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Espírito republicano sem altruísmo presumido


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O brasileiro parece ter dificuldade para desatrelar o espírito republicano de uma dose elevada de altruísmo. A necessidade de ver uma ligação entre uma coisa e outra pode turvar nosso raciocínio político e nossa capacidade de analisar os candidatos, os grupos a que pertencem, os interesses que representam e até suas propostas.

Essa ligação, existente no nosso imaginário, condiciona os discursos e nos força à generalização da hipocrisia. Qualquer candidato precisa se apresentar como aquele sujeito que está abrindo mão de sua vida privada para, de maneira sacerdotal e abnegada, dedicar-se a cuidar da coletividade. O problema é acentuado pelo populismo que norteou e ainda norteia muitos discursos.

Trazendo o tema para o campo da sobriedade, deveria ser mais fácil entender que um homem pode se interessar pela vida pública também para se realizar profissionalmente, dando melhor aproveitamento a suas aptidões. Esse tipo de realização, impulsionada um pouco pela boa dose de vaidade que cada um de nós carrega, direciona escolhas profissionais e é capaz de arrancar bastante empenho.

Estar inserido na atividade com que se identifica, onde pode trabalhar com paixão, talvez não seja a mais comum das ambições num mundo comandado pela caçada ao dinheiro, mas é uma busca que marca bastante as lutas de alguns homens. E não há altruísmo nisso. Trata-se de fato de uma busca bastante individualista, embora possa ser enfeitada com algum romantismo, o que não acontece com a simples busca do enriquecimento.

Por outro lado, parece imperar um simplismo conforme o qual há apenas dois tipos de homens, o ambicioso caçador de fortuna e o altruísta, descendente direto da Madre Teresa de Calcutá. O primeiro seria um corrupto inato e sobre o segundo recairia a legitimidade para fazer política pensando efetivamente na coletividade, atento aos ditames do espírito republicano.

Acredito que a ambição desmedida faz o corrupto, mas não acredito no descendente da Madre, até porque ela não deve mesmo ter tido filhos. Porém, há outros sonhos que alimentamos, entre eles o de dar plena vazão a nossas potencialidades, de sentirmo-nos bem aproveitados intelectualmente, de estarmos em contato com nossas paixões, que podem inspirar um bom político que não seja necessariamente um abnegado altruísta.

Claro, um mandato amplia contatos, pode melhorar naturalmente a posição social do candidato sem que esse se mostre um corrupto, sem que ele dê uma banana ao enigmático espírito republicano. Isso é reprovável? Que profissional, de qualquer outra área, não gosta de ascender em sua carreira?
Acabar com essa ingenuidade sobre o político altruísta ideal pode ajudar na escolha de bons candidatos.

Não quer dizer que cada um faça política buscando apenas o melhor para si, pois isso, em sentido amplo, é corromper-se. Quer dizer apenas que é possível haver um político profissional que pensa em realizar-se profissionalmente na política e esse homem não é necessariamente um bandido e nem precisa ser um santo.

Essa visão binária, maniqueísta, é uma das fontes da nossa cegueira, da nossa incapacidade de interpretar os processos numa democracia representativa.

Tocando no básico, a política deve ser feita tendo em vista os assuntos e interesses da coletividade. Cada um representa mais precisamente os interesses daquele grupo ou classe social à qual está mais intimamente ligado, que inclusive lhe confere apoio político. Essa é a natureza do processo democrático.

O que importa, em termos de leitura da realidade, é justamente identificar os interesses que representam os candidatos com base no contexto em que eles estão inseridos, nos grupos com que se relacionam. A simpatia ou antipatia com um candidato ou com um projeto, pedindo alguma licença ao Carl Schmitt, deve se basear nisso, e não na eterna espera do candidato ideal, desmedidamente altruísta.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O problema da universidade “estilo ENEM”

burro

Com todas as universidades federais em greve, vou por aqui adiantando minhas leituras em bioquímica. A ideia é facilitar minha vida durante o básico no curso de medicina, além de preencher meu tempo enquanto dura essa greve eterna. Como calouro da época de transição entre o vestibular tradicional e o ENEM, esse estudo introdutório me leva constantemente a refletir sobre a recente mudança no processo seletivo. 

A discussão sobre o ENEM como modelo de seleção para ingresso na universidade foi superada. Construiu-se um consenso de que os críticos do modelo são engomadinhos elitistas, defensores de um sistema meritocrático calibrado precisamente para manter seus privilégios de classe. “Case closed”. O problema é que a ciência acontece num campo e as discussões político-ideológicas em outro.

O que define a complexidade da informação com que deve lidar um estudante disposto a construir uma formação científica sólida não é o MEC, não é o ministro que acha que pensar dói demais e que devemos poupar o jovem desse sofrimento. Quem determina a complexidade da informação a ser assimilada e processada pelo estudante é o desenvolvimento da ciência, e esse acontece, para o bem ou para o mal, bem longe da vontade do ministro, porque ele se dá globalmente, nem mesmo está restrito ao Brasil.

É indesejável que se forme (ou que seja aumentado) um abismo entre o que sabe um estudante formado no Brasil e um formado no exterior. Se um livro é adotado para bioquímica durante o básico nos cursos de medicina, no Brasil e no mundo, é importante que os calouros ingressem nas faculdades capacitados a estudá-lo, portando os pre-requisitos que aquela leitura exige.

Como um candidato que observou a transição entre os modelos e que está agora em contato com o material adotado na faculdade de medicina, afirmo taxativamente: o tal “estilo ENEM” não capacita ninguém a entender o que está lendo num bom livro de bioquímica. O problema aqui não é a imbecilização geral do provão, o problema é a eliminação das provas específicas da segunda fase, que no modelo antigo forçavam os candidatos a um maior aprofundamento nas disciplinas diretamente relacionadas ao curso escolhido, no caso, química e biologia. 

No exemplo do livro que tenho usado como referência, o “Princípios de bioquímica”, do Lehninger, embora tenha uma grande preocupação com a didática, o autor não volta tanto ao “beabá” para ensinar química orgânica a um leigo. A leitura sobre reações nucleofílicas, sobre substituições radicalares e sobre os mecanismos dessas reações é satisfatória para quem traz alguma bagagem sobre os assuntos, mas imagino que seja insuportavelmente inacessível para quem nada trouxe nessa bagagem. Isso para ficar num único exemplo pinçado de um livro de mil páginas.

O problema é que o vestibular, “demonizado” como um carrasco a trucidar as pobres criancinhas do Brasil, não era apenas uma porta fechada no acesso à universidade. Ele era uma baliza a tentar garantir que os candidatos aos mais diversos cursos se preparassem, de alguma forma, pro que devem enfrentar na universidade. Se era ruim com ele, muito pior estará sem ele.

O descompasso criado pelo ENEM forçará uma descida no nível de exigência em muitas das cadeiras na universidade. Para ficar no exemplo aqui utilizado, não há tempo hábil e nem material disponível para ensinar um “beabá” de química e biologia aos alunos das cadeiras de bioquímica nos cursos de medicina. Da mesma maneira, presumo que se tenha criado um abismo entre o que é cobrado em matemática e física para os cursos de engenharia e os pre-requisitos da formação básica de um engenheiro, de forma bem análoga.

A gambiarra feita pelo MEC no processo de seleção deverá refletir numa “gambiarra” dentro dos cursos, que deverão descer o nível de exigência no sentido de se adequarem ao aluno “estilo ENEM”. Nossa política é feita dessa maneira, com um encadeamento de gambiarras para que nunca tenhamos de enfrentar os problemas centrais. Mas quem é louco para se preocupar com a qualidade da formação, quando o governo não se preocupa sequer em resolver a greve e devolver a universidade ao seu funcionamento?

terça-feira, 31 de julho de 2012

O que não entendo no caso Vítor Suarez


vitor suarez

De ontem para hoje as redes sociais foram tomadas de indignação pela soltura dos acusados de espancarem violentamente o jovem Vítor Suarez. O rapaz foi vítima de violentas agressões por tentar salvar o mendigo que estava sendo espancado antes dele. Nesse caso, posso entender boa parte do que vem acontecendo, mas tem um pedaço da história que me escapa à compreensão.

Entendo a parte jurídica, embora considere que muito precisa ser revisto em matéria de direito penal por aqui, tanto na esfera material quanto na processual.

O desenrolar do processo leva à revolta de quem o observa, que advém do tratamento dado à figura do "réu primário", tratamento que dá quase o direito de cada um cometer pelo menos um crime, mesmo que bárbaro, nesse país, tamanhas as regalias que são dadas a esse curioso personagem jurídico. “Um crimezinho apenas, coisa que não precisa complicar a vida de ninguém.”

Parece que as regalias das quais se cerca o réu primário fazem parte da blindagem de classe com que que o cidadão "bem nascido" conta no direito penal brasileiro. Separa aquele criminoso pobre que duas ou mais vezes furtou galinhas do playboy que, só uma vez na vida, por brincadeira, resolveu matar um mendigo de porrada. Não se pode confundir o desrespeito sistemático à propriedade com uma diversão inocente, cometida só uma vez.

Os bons garotos que estavam espancando o mendigo são rapazes bem nascidos, de boa família, réus primários. Se encaixam perfeitamente no perfil do "cidadão de bem", que no Brasil significa "bem nascido", "bem vestido", não tendo nada a ver com caráter ou conduta.

Entendo que os holofotes estejam mais sobre o Vítor Suarez, pelo ato de heroísmo, por ter posto a própria vida em risco pra salvar a vida desgraçada e descartável do mendigo. Acho interessante que ele use esses holofotes para manter o caso em evidência, mesmo recusando o tratamento de herói.

Algo que não entendo é o sumiço do mendigo. O sujeito que estava sendo espancado inicialmente sumiu de cena, ninguém sabe quem é, ninguém sabe o que passou, que tipo de lesões sofreu. Talvez porque o Vítor tenha chegado a tempo, ou talvez porque a mídia reproduz a mesma mentalidade que movia aqueles rapazes de família na hora do espancamento: o mendigo não importa.

Vale também salientar que apenas o mendigo, sem nome, sem nada, e o Vítor são mencionados na maior parte das matérias recentes que tratam do assunto. Os nomes dos bons garotos que espancaram o mendigo e depois o Vítor, por ter estragado a brincadeira, surgem cada vez menos. Começam a ser menos frequentes nas notícias do caso e tendem a cair no esquecimento.

Tadeu Assad Farelli Ferreira, William Bonfim Nobre Freitas, Fellipe de Melo Santos, Edson Luis dos Santos Junior e Rafael Zanini Maiolino, talvez saiam dessa sem dever muita coisa à legislação penal brasileira, mas seus nomes ficam aqui, na internet, para que o peso da reprovação social seja eterno. É o mínimo que podemos fazer.