segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O MEC fica com Mercadante; o prejuízo do ENEM, com o estudante

haddad fedeu
Sim, fedeu mesmo.

Em matéria recente, a revista Veja pegou como objeto de sua “crítica” o trabalho do ministro Fernando Haddad, sujeito que, durante 6 anos à frente do MEC, tratou de transformar o processo seletivo para o ensino superior numa trapalhada como jamais vista “na história desse país”.

A matéria teve a oportunidade de arrancar a máscara do ministro que jogou na lama os planos de jovens que pretenderam vagas no ensino superior nos últimos anos, mas como isso não rende capa explosiva de escândalo de corrupção, o texto ficou na superficialidade. No balanço da Veja, o MEC de Haddad é apenas medíocre; e em sua mediocridade ele ainda é melhor avaliado que as gestões anteriores. 

Pouco explorado no artigo, o ponto fraco do ministro é também o seu “xodó”. O “novo ENEM” que veio substituir os vestibulares tradicionais realizados pelas Universidades prometendo modernização e democratização. Não promoveu nada disso e transformou o processo seletivo num caos sem tamanho.

Todos as edições do ENEM são juridicamente nulas


Quem já folheou algum livro de direito administrativo, assimilou algo dos princípios da disciplina e deu pelo menos uma olhadinha no que trata de nulidades, sabe que, juridicamente, nenhuma das edições do “novo ENEM” se sustenta.

Casos maiores ou menores de vazamentos de questões ou de provas inteiras, de irregularidades na impressão dos cadernos e outros problemas estiveram presentes no concurso desde o primeiro, em 2009. A despeito da energia investida pelo Ministério Público, os processos foram validados na base da “gambiarra”.

O ponto aqui é: num concurso público, uma irregularidade que afete a isonomia do processo sinaliza um vício de nulidade. O processo não é anulável, ele é nulo de pleno direito, bastando o reconhecimento judicial da nulidade para que todos os seus efeitos sejam invalidados e as relações jurídicas por ele influenciadas retornem ao estado anterior.

Desde 2009, o direito administrativo e a própria Constituição Federal foram postos em confronto com o novo ENEM e, para a nossa desgraça, o MEC venceu. Alguns dos mais elevados princípios do Direito Público foram afastados para que os vícios do processo fossem “sanados” na base da gambiarra. Isso porque, no Brasil, ainda é besteira respeitar a Constituição quando ela se confronta com os interesses do grupo político dominante num dado momento.

Entre discurso e a realidade


É interessante o discurso de sustentação do ENEM. A princípio, o processo deveria quebrar com a lógica de sobreposição de conteúdo que imperava nos vestibulares e estabelecer um exame mais razoável, menos condicionado por macetes e “bizus”, subtraindo um pouco do poder dos cursinhos particulares e democratizando os resultados.

Ademais, com o SISU, qualquer candidato estaria concorrendo a qualquer das vagas ofertadas no sistema, o que, em tese, deveria favorecer o ingresso dos estudantes nas diferentes instituições.
Da tese para a realidade, a coisa muda de figura. Como praticamente nada é feito para melhorar a qualidade do ensino oferecido na rede pública, o aluno dessas escolas continua em tremenda desvantagem na pontuação.

Para piorar, com todos concorrendo por todas as vagas, fica em vantagem o aluno que conta com recursos para prover sustento em outra cidade, o que sai caro. Quer dizer, enquanto o ENEM não serve sequer para a redução do desequilíbrio pré-existente, o SISU cria um outro que desfavorece ainda mais o estudante pobre. 

Com esse empilhamento de deturpações, a promessa de democratização do acesso à universidade fica exclusivamente a encargo de ações afirmativas. Assim, elas precisam ser decisivas, seu peso tem que ser tremendo para que elas valham de alguma coisa diante dos desequilíbrios agravados pelo próprio SISU.

Não é questão de favorecer levemente para ajudar um aluno esforçado e que luta contra adversidades oriundas de sua situação social. É preciso um multiplicador de notas calibroso, que praticamente dê a vaga. Até porque ele precisa compensar as disparidades extras que o ENEM criou sem resolver as que antes existiam.

A prova e, especialmente, a redação


Já em 2009, algumas questões de provas do ENEM viraram piada em toda parte. Numa delas, um texto de uma conversa via MSN, que parecia escrito por um cidadão disléxico que fumou crack, servia de ilustração para a pergunta que viria depois, que basicamente questionava se a norma culta estava sendo respeitada ali.

De lá pra cá, as questões desse tipo não desapareceram. Talvez elas tenham sido melhor camufladas para evitar a gozação, mas estão pela prova inteira, fazendo com que o questionário e os “textos de apoio”, por vezes sem utilidade e até mesmo idiotas, agigantem o caderno.

São quatro horas e meia no primeiro dia e cinco horas de prova no segundo dia. As questões de múltipla escolha dão preferência ao uso de “textos de apoio” mesmo nas questões em que eles não são necessários e estão ali apenas para causar perda de tempo.

No segundo dia, há um agravante. Após quarenta questões de línguas e interpretação de texto, vem uma sequência de 45 questões de “contas”, que foi o que sobrou para a matemática depois que a turma do Haddad mutilou o programa da disciplina.

O aluno do ensino médio no Brasil não tem mais matemática no currículo. Se o objetivo é aprovação no ENEM, ele tem basicamente que treinar a habilidade de fazer com caneta e papel contas que podem ser feitas com uma calculadora por quem nunca foi à escola.

Fica claro que, nessa segunda prova, a administração do tempo é muito mais importante que o preparo do candidato nas disciplinas, até porque o estudante precisa deixar um bom tempo para a redação que, ingenuamente, ele pensa que alguém vá ler antes de dar nota.

As recentes denúncias de que a redação do ENEM não é corrigida, ou de que passa por uma correção de “faz de conta”, apenas corroboram com as impressões que tive após prestar o “concurso” por três anos seguidos.

Aqui não cabe modéstia, pois preciso usar meu exemplo para dar destaque ao que vem sendo discutido sobre a redação do ENEM. Minhas redações, tanto em concursos quanto em avaliações simuladas, tiveram quase sempre nota máxima. Em algumas ocasiões, uma distração me fez perder um décimo numa dessas notas.

Falei algumas vezes sozinho o que agora vem sendo desmascarado pela imprensa: a redação do ENEM não é corrigida. O que eles fazem não pode ser chamado de correção. O resultado da prova de redação é aleatório.

Sou formado em direito e sempre me interessei por temas relacionados a política, sem interesses partidários, primando pelo exercício da crítica. A propaganda do ENEM dizia que essas capacidades seriam decisivas no julgamento da redação, com uma relevância até maior do que a da absoluta atenção à norma culta.

O estranho é que meus textos abordando temas de interesse social tenham sido bem avaliados durante a vida inteira, desde o ensino médio, passando pela faculdade e por uma especialização em Direito Consticional. Nunca tive dificuldade em obter notas altas e a petição que escrevi de caneta no exame da OAB também teve pontuação máxima. Só quem não “curtiu” muito o que escrevo foi a misteriosa “banca” do ENEM.

Aqui não faço coro com uma parte alucinada da oposição que brada contra um suposto julgamento ideológico dos textos. Embora não simpatize e não tenha interesse em participar de qualquer partido ou organização hoje existente, tenho formação de esquerda e meu dircurso, nesses textos, certamente agradaria a um corretor tendente a favorecer textos alinhados ideologicamente.

Prestei o “concurso” três vezes e posso afirmar, com base na minha experiência e nos novos relatos surgidos recentemente, que o resultado da redação é aleatório. O único ano em que obtive uma nota acima do limiar da mediocridade foi em 2011 e não considero aquele texto o melhor dos que preparei nas três ocasiões.

Sempre desconfiei de que eles na verdade não leem as redações, mas ficava calado pois, vindo de quem não obteve a nota que precisava, isso parece desculpa de fracassado. Agora mais gente começou a falar e a imprensa tá em cima.

Se há um concurso em que a nota da redação tem peso decisivo e essa nota é aleatória, isso não é um concurso. É claramente uma farsa. É preciso marcar colado pois isso precisa parar. Estão sabotando a vida de muitos jovens com essa farsa, ano após ano.


Universidade sabotada


Com o ENEM e o SISU, o Governo Federal praticamente eliminou a autonomia das Universidades em seus processos seletivos, que foram substituídos por uma farsa centralizadora, cheia de contradições. O concurso enfrenta, a cada ano, o ataque do Ministério Público que, cumprindo seu dever institucional, trata de desnudar e de explorar os vícios de nulidade evidenciados no processo.

É grande o custo gerado pelo ENEM, sem que qualquer vantagem seja oferecida. Há muito tempo as vagas em universidades públicas, nos cursos menos concorridos, estão aí para quem tem um desempenho na verdade bem modesto nas provas. O terror do vestibular é conversa de adolescente tapado. O ENEM surgiu com a promessa de eliminar uma “crueldade” imaginária do vestibular e com a falsa proposta de democratizar o acesso ao ensino superior.

Na verdade, os cursos menos concorridos já sofriam com a entrada de candidatos pouco capacitados e agora, nesse aspecto, tudo fica ainda pior. As provas específicas, que averiguavam a mínima desenvoltura em disciplinas fundamentais para a carreira acadêmica pretendida, foram eliminadas. As vagas de engenharia poderão ser ocupadas por candidatos com pouco conhecimento em matemática e, pela baixa concorrência do curso, podem se dar ao luxo de um desempenho mediano numa “prova de continhas”, para ficar apenas com um exemplo mais ilustrativo.

Na prática, os cursos menos concorridos estão aí para quem quiser, como sempre estiveram, com a diferença de que agora o candidato tem que ir bem no sorteio da nota da redação. Ou seja, não mudou quase nada e o pouco que mudou foi pra pior.

No caso do curso de medicina, o caos é total, tendo em vista que o provão, menos complexo e com o tempo apertado, é menos eficiente para testar candidatos em alto rendimento. O desafio do aluno que pretende medicina é o de se manter por vários anos acima das notas de corte num provão extenso e, na sua maior parte, pouquíssimo exigente, esperando em um desses anos ser contemplado no sorteio da redação.

O que Fernando Haddad queria com o ENEM? Claro que o projeto não é uma deliberada sabotagem do sistema de acesso ao ensino superior. A questão é que as mudanças de verdade na educação dão resultados a longo prazo e o ministro precisava de algo grandioso em seu currículo para partir, como agora está partindo, para carreira solo como candidato.

Medidas que tenham efeito na triste realidade do ensino no Brasil tendem a refletir a médio ou a longo prazo, quando já se foram as gestões, os cargos, e os holofotes. O ENEM é um projeto aventureiro, arriscado, de um sujeito que precisava aparecer, caso desse certo, com algo digno de ilustrar um grande currículo. O plano arriscado visava apenas acrescentar algo o currículo do ministro.

Tivemos três anos para ver que o ENEM trocou o vestibular tradicional pelo mais puro caos. O resultado da aventura do ministro são três anos consecutivos de desastre, o que afetou a vida dele, que continua sem nada de positivo para apresentar e mesmo assim vai ser candidato, e a vida de incontáveis brasileiros que tiveram a infelicidade de desejar uma vaga numa universidade pública nesse intervalo.

Fernando Haddad será candidato à prefeitura de São Paulo levando no currículo um projeto irresponsável, aventureiro, que sabotou a seleção de candidatos às vagas do ensino superior público. Minha volta à condição de vestibulando não saiu como eu esperava, mas também estou partindo para uma nova graduação na qual, creio, conseguirei me realizar e dar o melhor dentro de minhas potencialidades. No fim das contas, ambos estaremos bem, eu com meu esforço e ele com o apoio de um eleitorado míope e de uma "esquerda" que institucionalizou o "oba oba" e os aplausos incondicionais a qualquer tipo de palhaçada.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Humor, baixaria misógina reiterada e “liberdade de expressão”

Dont-be-sexist
É inusitado retomar esse blog assim depois de tanto tempo e fazê-lo movido por uma “piada” idiota vinda de um “humorista” do CQC. A conversa sobre a piada em si e suas repercussões eu já vinha fazendo no Twitter, mas o espaço lá não é o melhor para tocar nos pontos mais importantes, que dizem respeito diretamente à questão da liberdade de expressão, conforme argumentam alguns participantes mais confusos.
Conteúdo odioso autodeclarado “politicamente incorreto”
Muita gente por aí se declara “politicamente incorreta” pelo simples fato de se portar com irreverência, mas esses nem sequer tangenciam o “politicamente incorreto de raiz”, que está intimamente atrelado ao discurso neoconservador, faz parte dele e é ponto importante da sua retórica.

É uma questão de conveniência. A parte mais truculenta da direita atual, aquela que se porta como “redneck texano” em qualquer parte do mundo, precisa insurgir-se contra uma ilusória “ditadura do politicamente correto” para derramar seu ódio contra homossexuais, contra as conquistas femininas e por vezes até contra estrangeiros ou minorias étnicas.

Quem não cruzou ainda com esses tipos por aí talvez não faça a relação, mas se existe um cerne de onde emana toda a retórica de insurgência contra uma suposta “patrulha do politicamente correto”. Ele fica precisamente localizado na “produção intelectual” (sic) do típico “free thinker” neoconservador. É isso que arma, por exemplo, o discurso de pastores evangélicos que querem ser livres para “usar a bíblia” na sua “nobre missão” de taxar homossexuais como aberrações.

Esse tipo de gente vive se queixando de uma crescente censura, advinda de um patrulhamento realizado por “gente de esquerda” que se agarra à normatividade do politicamente correto para tolher o seu sagrado direito de pregar ódio e de despejar ofensas sobre minorias. 
Responsabilidade, cidadania e liberdade de expressão
Como se não bastasse termos um segmento da sociedade mobilizado na defesa de um “direito de pregar o ódio”, há um grupo de “artistas” que considera a simples ofensa um genial trabalho humorístico e acaba servindo, convenientemente, para provocar uma confusão entre a responsabilidade pelos próprios atos e a liberdade de expressão, então vamos nós tentar pontuar essa questão.

Não pretendo citar dispositivos legais nesse texto, não é minha tarefa aqui, mas convém salientar que o país vive, desde 1988, sob a égide de uma Constituição democrática que se sobrepõe e dá força a todos os códigos e leis infraconstitucionais. São 23 anos de discussões que visam a harmonizar todo o sistema normativo ao espírito democrático e ao primado da cidadania que orientam a Constituição Federal. Estamos longe de chegar ao ideal, caminhamos na direção dele mais lentamente do que gostaríamos, mas caminhamos.
 
Nosso sistema normativo não apenas exclui, como abomina, qualquer tipo de cerceamento à liberdade de expressão. Todos são livres para manifestarem-se como quiserem sobre os temas que bem entenderem, sendo apenas vedado o anonimato para que cada um possa responsabilizar-se perante a sociedade por aquilo que declara. Trata-se de uma questão de responsabilidade, que nem de longe se confunde com censura ou cerceamento à liberdade de expressão ou muito menos de imprensa.

Liberdade de expressão não cria um ambiente onde todos podemos trocar ofensas livremente, nem promover mensagens de ódio e desrespeito às mulheres, aos homossexuais, a grupos étnicos ou a quem quer que seja. Declarações desse tipo geram respostas morais e jurídicas que não têm qualquer relação com censura e se dão através de mecanismos previstos na ordem normativa das mais avançadas democracias.

Há, por outro lado, um grupo de profissionais da mídia que gosta de ver em tudo uma ameaça ilusória de volta da censura, de retrocesso da democracia. Alguns estão comprometidos com uma agenda política mais abrangente de oposição ao governo, outros, até por falta de repertório, estão tocando há quase uma década esse “samba de uma nota só” onde afirmam estarmos sob ameaça iminente de uma volta censura que nunca veio e nem dá qualquer sinal de que virá.

Há sempre quem diga “ah, mas o humor, a piada, sempre irá colocar alguém, alvo da gozação, em má situação”. A questão aqui é de inteligência, de ter um mínimo de sensibilidade. É possível ver gays rindo de piadas de gays na companhia de outros gays. Isso porque as piadas fazem graça com questões de comportamento, mesmo que caricaturando o homossexual. Essas são diferentes da pura ofensa travestida de “gracinha”, que visa muito mais a diminuir o sujeito como ser humano, atacar-lhe a dignidade, do que a fazer humor de qualquer tipo.

Piadas racistas, sexistas, que tem como único mote o ataque à honra e a dignidade do outro, partem de premissas odiosas e precisam encontrar, na plateia, uma aceitação dessas premissas. No momento em que a plateia não compactua com a mensagem odiosa, o piadista se vê em apuros. Quem é profissional do humor que tenha consciência disso e saiba se deslocar com habilidade, que conte piadas imbecis quando tiver a certeza de estar cercado por imbecis.

O problema é que estamos em tempos de crise da criatividade e até mesmo os idiotas precisam do seu lugar ao sol. Como bem destacou minha “amiga de Twitter” Maria Stella Soares, a questão é que a lei também se aplica ao idiota.

Em tempos de mídias sociais e de hiperconectividade, onde qualquer declaração que cause maior impacto pode voar pela internet inteira e colocar o seu autor no centro das atenções, é bastante fácil um sujeito virar assunto do país inteiro, talvez até do mundo, simplesmente falando uma estupidez de grosso calibre, como declarar num programa de TV que comeria uma mulher grávida juntamente com o filho que ela carrega.

O grande desafio para quem pretenda viver de uma atividade tão baixa é o constante cálculo de “custo-benefício” desse tipo de declaração. Até que ponto vale à pena alçar-se ao topo dos temas da internet dessa maneira, sendo exposto como um ícone da baixaria e da escrotice por meio de uma “piada”, que de piada não tinha e nem poderia ter nada.

O suposto benefício já veio, não é? Eu mesmo que passo longe de uma TV sintonizada em qualquer coisa parecida com “CQC” estou aqui tratando dessa porcaria de tema, ajudando a manter os holofotes sobre o autor da tal “piadinha”.

Agora a questão é que, para alguns envolvidos na discussão, o autor da dita “piada” não pode colher os custos, não pode arcar com as consequências da grosseria, simplesmente porque, na opinião desses, os '”humoristas” devem ficar situados acima de qualquer legislação.

Quer dizer, responder civilmente por aquilo que declara agora é uma “volta da censura”, porque os humoristas devem estar acima da lei, e os imbecis mais ainda. Numa formulação desse tipo, um sujeito que é humorista e imbecil ao mesmo tempo poderá se transformar no próprio Leviatã.
Relativismo de conveniência
O que tornou essa discussão interessante foi o fato de ter surgido logo após um julgamento do Conar que considerou ofensiva e machista uma campanha publicitária onde a Hope Lingerie, num vídeo com a modelo Gisele Amélia Bündchen, sugere que as mulheres devam oferecer favores sexuais como compensação ao dar notícias desagradáveis ao “pater familiae” (em latim destaca melhor a noção de mulher objeto).

Vendo a discussão pela internet, percebi que algumas pessoas que aplaudiram a decisão do Conar partiram, logo em seguida, em defesa do “humorista”. No primeiro momento, a publicidade era ofensiva, objetificava as mulheres e trabalhava contra todas as conquistas sociais delas. Num segundo momento, a “piada”, vinda de um sujeito que já havia feito “gracinhas” como sugerir que “mulheres feias devem agradecer por serem estupradas”, era apenas uma brincadeira e essas brincadeiras devem acontecer livremente e sem consequências, em virtude de uma imunidade jurídica do piadista.

Então, a propaganda da Hope também era uma piada e essa foi a defesa usada pela empresa em prol do texto do comercial. A ideia agora é que você pode usar de uma “piada” como veículo para propagar todo tipo de ofensas e baixarias porque há um consenso sendo trabalhado de que as piadas devem estar fora do alcance da lei, de que os “humoristas” não devem responder pelo que dizem ou de que a legislação vigente não deve ser aplicada a imbecis.

O relativismo é uma ferramenta importante em trabalhos de filosofia, mas quando aplicado por nós em temas do cotidiano tende a ser desviado por distrações que nos fazem ser relativistas apenas quando convém. Assim podemos analisar os fatos com base em nossos juízos de valor em uma ocasião e em outras, não. É quase como sofismar inconscientemente.
O gran finale
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Após ser afastado do programa em decorrência de suas reiteradas “piadinhas” com baixaria misógina, o “humorista” posta imagens no Twitter onde insinua estar “saindo por cima” cercado de “companhias femininas remuneradas”. Gênio? Aham…

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

"E deus viu que isso era bom"

 

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Uma coisa estranha na narrativa do Gênesis é que, vencida cada etapa da criação, afirma-se "e deus viu que isso era bom". Agora, quando você é onipotente e onisciente, não dá pra saber que algo vai ficar bom antes mesmo de começar a fazer?

Comigo mesmo, que sou bem limitado, acontece às vezes de começar a fazer algo já sabendo que vai ficar bom... Esse texto, por exemplo, quando comecei já sabia que ele seria mediocre, mas segui em frente apenas porque ele valeria como uma provocação. E garanto que foi bem fácil fazer essa previsão.

Ocorre que, claro, o sujeito que escreveu aquilo, àquele tempo, não teve acesso à ciência ou a qualquer coisa assemelhada a um "método". Basicamente, o que garante o resultado e nos permite afirmar, antes de fazer, que algo vai ficar bom, é a qualidade da ideia e o método usado para a execução.

O texto, evidentemente, expõe as limitações do seu autor. Os homens que escreveram aqueles textos projetaram em deus, o personagem que estavam criando, suas próprias limitações. O que assombra é que milênios depois isso não fique perceptível.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Da revolução dos bichos à intentona das árvores

 

Estou com ingressos comprados para ver o Rush tocar em casa, no Canadá, num estádio de hockey. Um sonho de infância se realizando. O show será no dia 19 de abril próximo no Copps Coliseum, em Hamilton, Ontario e… bom, verei o power trio do rock progressivo que me inspirou musicalmente a vida inteira, mais em algumas épocas, menos em outras, mas sempre ali como referência.

Com a antecipação do show, tenho ouvido um bocado de coisas da banda. Possuo aqui a discografia inteira e escuto mais a fase dos anos 70, que vai até praticamente o Moving Pictures e consiste na parte que considero mais interessante da produção musical do Rush. Dou uma chance a essa fase que veio após o Signals, mas não consigo me entusiasmar por esses albuns como acontece com os mais antigos.

Numa dessas audições preparatórias, me deparei novamente com The Trees, do álbum Hemispheres, gravado em 1978 e um dos meus preferidos. Eu já tinha da letra dessa música a maior parte das impressões que venho expor nessa postagem, mas apenas agora resolvi colocá-las num texto. Quando eu era moleque "roqueiro" não existiam blogs e escrever diarinhos era um hábito que podia pesar bastante contra a sua reputação.

A letra dessa música já levantou muita discussão entre os fãs da banda ao longo dos tempos e a maioria das interpretações tenta imprimir nela um significado que vai muito além do que a própria letra possibilita.

There is unrest in the forest, there is trouble with the trees; For the Maples want more sunlight and the Oaks ignore their pleas.

Maples tem a forma de arbustos e são imensamente disseminados no Canadá. Como arbustos, tem baixa estatura e caules bastante ramificados.

 

The trouble with the Maples, and they're quite convinced they're right; The Oaks are just too lofty, and they grab up all the light

 

 

Carvalhos (oaks), além de imensos também se ramificam bastante e produzem muita sombra. O que a letra sugere é uma situação de conflito por luz entre as duas espécies vegetais onde os maples se unem, formam um sindicato, e se põem a lutar pelo seu direito à fotossíntese. Por outro lado, os carvalhos apreciam a maneira como foram feitos pela natureza, e naturalmente, não irão aceitar qualquer mudança.

But the oaks can't help they're feelings if they like the way they're made, and they wonder why the Maples can't be happy in they're shade.

Até aqui, a fábula exposta na letra, embora não seja original e não resista à acusação de ser uma mera transposição da Revolução dos Bichos para o reino vegetal, mantém um rumo interessante. Há o conflito e há uma elite que não irá de maneira alguma abrir mão de seus privilégios, mesmo que eles ameacem até mesmo a subsistência dos estamentos mais baixos daquela sociedade arbórea.

There is unrest in the forest, and the creatures all have fled, as the Maples scream "OPPRESSION!!", and the Oaks just shake their heads.

A tensão aumenta e todas as outras espécies deixam a floresta. Aproxima-se o confronto final, a sublevação dos maples oprimidos contra os carvalhos opressores avança e a fábula chega ao ápice.

So the Maples formed a union and demanded equal rights. "The Oaks are just too greedy. We will MAKE them give us light!

Até aí, a única acusação a pesar contra a letra de The Trees é justamente o fato de ser um copy/paste estilizado de Animal Farm, mas a letra da música do trio canadense se desgraça mesmo é no desfecho.

Now, there's no more Oak oppression, for they passed a 'noble' law. And the Trees are all kept equal by hatchet, axe, and saw.

Que é isso? No justo momento da confrontação, a revolução simplesmente não se deu. Do nada, apareceram serras e machados e reduziram todos eles a tocos.

Tudo bem que a revolução dos bichos na fazenda do Orwell também não acaba em boa coisa, mas ali a fábula faz uma certeira crítica ao totalitarismo stalinista e aqueles porcos correspondem justamente aos suínos filhos da puta que mantiveram uma máquina de opressão e matança "em nome da causa" no leste europeu. Mas o que diabos aconteceu com a fábula vegetal do Rush? Esses machados e serras são uma espécie de "castigo divino"?

Os machados e as serras vieram simplesmente do nada e acabaram com o conflito aniquilando igualmente ambos os lados da contenda. Quer dizer, a coisa ganha aquele ar de "castigo divino" contra a própria existência do conflito e a letra, com esse fechamento, não pode ganhar outra interpretação a não ser a de uma desastrada apologia a uma sociedade estamental nos moldes do feudalismo.

No entanto, os canadenses possuem uma obra que, no contexto, não permite que os consideremos lunáticos defensores de ordens estamentais ou coisas do tipo. Isso fica claro, por exemplo, na letra de Bastile Day, uma música que glorifica a violenta quebra da ordem feudal. Dessa forma, é mais fácil julgar que eles não precisavam de versos extras para concluir The Trees e essas serras e machados chegaram apenas para dar um fechamento abrupto à letra da música. Por sinal, a letra de Bastile Day trata de revolução social e é bem mais interessante, assim como é concluída mais cuidadosamente.

Fechamentos desastrosos à parte, concedo a licença poética aos caras e se eles tocarem The Trees por lá eu estarei segurando uma latinha de cerveja bock e forçando meu falsete horroroso para cantar junto!

 

 

Ah… estive bastante sumido daqui porque minha cota de blogagem anda consumida no www.droider.com.br, mas vez por outra pretendo voltar por aqui e produzir alguma coisa. Faz bem escrever sobre assuntos não tecnológicos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A ressaca de uma campanha baseada em ódio e preconceito

 

Durante essas eleições me portei, praticamente, como uma ave de rapina. Havia pouco de política em discussão. O que mais abundou mesmo foi a podridão. José Serra jogou no lixo sua biografia e, portando-se como um beato alucinado, passou a orquestrar uma campanha desesperada, baseada em ódio religioso e na pregação de toda sorte de preconceitos.

Não iria me dar o trabalho infrutífero de tentar extrair dessas eleições qualquer material para discussão política. Fiquei apenas sobrevoando a podridão, feito um urubu, e descendo para dar uma bicada certeira cada vez que achasse conveniente. Não encontrei outra forma válida de atuação e nem acho que poderia ter encontrado.

Serra e sua cúpula tentaram orquestrar tudo “de cima”, inserindo temas religiosos no programa da TV, tentando criminalizar o passado de luta contra a ditadura da adversária para insuflar diversas manifestações de ódio sem efetivamente “meter a mão na massa” (fecal).

A distribuição de panfletos difamatórios apócrifos nos piores setores da igreja católica e em igrejas evangélicas numa tentativa de “satanizar” a adversária, obviamente, jamais foi assumida por Serra ou por qualquer liderança da campanha.

A conclusão mais fácil seria de que, ao determinar a entrada de temas tendentes a exaltar os ânimos dessas pessoas, a campanha tucana apenas abriu as porteiras para que uma manada de loucos enfurecidos caísse em campo para fazer o trabalho sujo voluntariamente. No entanto, passada a campanha, me sinto compelido a fazer uma releitura e pontuar melhor o envolvimento das lideranças com essa estratégia.

A campanha tucana explorou o tema do aborto com a própria Mônica Serra chamando a adversária de “matadora de criancinhas”, o que provocou na militância a reação de encher seus profiles no Twitter e no Facebook com fotos de bebês.

Não imaginava a senhora Mônica o tamanho da pedrada que viria no seu “telhado de vidro” no que atine a esse tema em particular, quando uma ex aluna, revoltada com a estratégia hipócrita, resolveu revelar que aquela mulher, que agora se portava como um Torquemada “anti-abortista”, na verdade já havia praticado um aborto.

A estratégia da massiva panfletagem com textos apócrifos tentando atribuir à adversária a imagem de uma “terrorista assassina” deveria parecer iniciativa de um bando de malucos de extrema direita que resolveram agir por conta própria, mas descobriu-se que muitos desses panfletos foram impressos em gráficas pertencentes a tucanos.

Se as lideranças tucanas não estavam participando ativamente da estratégia sub-reptícia de tentar explorar temas religiosos e outras baixarias para insuflar ódio em campanha, o que faziam José Serra e Tasso Jereissati numa igreja em Canindé, no interior do Ceará, quando, ao serem repreendidos pelo padre em virtude de estarem tumultuando uma missa, ocasião em que Tasso teve o impulso de partir descontrolado para cima do padre, acusando-o de ser “petista”?

Enfim, essas eleições foram marcantes em vários aspectos, mas o que mais surpreendeu foi a capacidade, não só da Dilma quanto do próprio povo brasileiro em atravessá-la.

Primeiramente, pelo que se conhece a partir de estudos de opinião, um político que, no Brasil, seja alvo de ataques que tentem explorar sua posição quanto à religião para jogá-lo contra a fé do povo, está perdido. Os tucanos sabem muito bem disso, pois o próprio Fernando Henrique perdeu uma eleição para a prefeitura de São Paulo para Jânio Quadros por ter se atrapalhado diante de uma pergunta sobre sua fé (ou ausência dela). A eleição estava apertada e, no dia seguinte, a campanha adversária espalhou panfletos dizendo “Cristão vota Jânio”. Os tucanos creditaram a derrota à postura vacilante de FHC diante daquela pergunta no debate.

De lá para cá a coisa não mudou tanto. Pelo contrário, com o crescimento das igrejas evangélicas, onde pastorecos se dão o trabalho de, continuamente, “em nome de deus”, pregarem a discriminação de homossexuais e outras tantas formas de preconceito, a munição para uma campanha desse tipo se tornou até mais abundante. O próprio vice de Serra, o patético jovem “neocon” Índio da Costa, chegou a se reunir com evangélicos para prometer inserir no programa de governo retrocessos na legislação que protege homossexuais de ofensas preconceituosas. Coisas abjetas, vindas de um sujeito abjeto reunido com gente abjeta.

Dilma foi muito habilidosa e teve um jogo de cintura surpreendente ao lidar com as “saias justas” que exploravam suas supostas convicções religiosas. Quanto ao eleitor, evidentemente, boa parte se deixou levar por isso, mas também é surpreendente que isso não tenha virado o resultado da eleição. Os tucanos fizeram uma aposta, e uma aposta bem embasada, de que radicalizando a vulgaridade e a baixaria, eles iriam sujar as mãos, mas que depois as lavariam nas torneiras do Palácio do Planalto. Dessa vez, não deu.

Encerrada a campanha, com a vitória de Dilma, a lamúria pela derrota de Serra na internet se deu como era esperado, com uma enxurrada de ofensas preconceituosas contra pobres, nordestinos, negros, etc. De maneira alguma fui surpreendido pelo ocorrido. Esse texto tem, unicamente, o objetivo de demonstrar que as lideranças tucanas em campanha tinham, SIM, a mão na massa e agora saem dela com as mãos sujas, tendo emporcalhado a discussão política e insuflado ódios e preconceitos que serviram apenas para dividir o país.

A OAB de Pernambuco já garantiu que os responsáveis pelas manifestações de preconceito irão enfrentar as consequências legais. E quem estava orquestrando isso tudo, paga como? Espero que colha pelo menos um grande prejuízo político.

José Serra, você reacendeu em mim o interesse por política, que andava um tanto morto. Nunca poderei manifestar apoio a ninguém com tanto entusiasmo como manifesto oposição a você e a tudo o que você se dispôs a representar durante sua odiosa campanha.

Não sou hipócrita para declarar que “espero que você aprenda” e volte a ser político, deixando de ser o beato alucinado a semear ódio no qual você resolveu se transformar. Espero, francamente, pois não sei me afastar da franqueza, que você colha dessa campanha os maiores prejuízos políticos possíveis e que isso repercuta sempre em toda tentativa sua de se lançar candidato. Trataremos de preservar a memória desses deprimentes episódios encenados por você e pelos seus. 

PS: Usei novamente esse vídeo do Youtube porque ele é emblemático e mostra a abundância de manifestações de ódio que vieram após a derrota tucana. Não sou o autor do vídeo. Se fosse, não teria usado a imagem do Hitler. Não gosto de dar chances de me enquadrarem na Lei de Godwin em qualquer discussão política.

Em tempo, quem tiver estômago para dar uma olhadinha na coletânea do que foi produzido pela “limitância” tucana, é só ir aqui. Tome um antiemético, se for o caso.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Serra plantou ódio, e o Brasil colhe preconceito: as manifestações contra nordestinos na internet

 

Vale a pena, tomando cuidado com possíveis nauseas, ver o vídeo acima e ler o texto do Rogrido Viana, que vai justamente ao encontro do que pensei ao entrar em contato com as manifestações de ódio preconceituoso que sucederam a derrota tucana nas eleições.